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Entrevistas

Bordando mundos com a arte têxtil de Pedro Luis

28/08/2025Postado por: Equipe CRAB

Uma entrevista inspiradora com Pedro Luis, artista visual carioca que transforma bordados em murais e poesia visual. Nesta conversa conduzida por Laura Landau, Pedro compartilha sua trajetória, influências e o processo criativo que une memória, afeto e fios. Conheça como ele reinventou o fazer têxtil, levando o ponto cruz das linhas ao concreto urbano. Uma leitura rica sobre expressão, arte e identidade.

Conversa fiada – Bordando mundo com a arte têxtil de Pedro Luis

Estamos dando início ao projeto Conversa Fiada, uma série de entrevistas com pessoas que trazem pontos de vistas inventivos sobre a relação com o fazer artesanal e sua rede. São artesãos inovadores, artistas visuais, designers, pesquisadores, criativos, professores e muitas outras pessoas que estão pensando sobre e fazendo artesanato, trazendo desafios, soluções e inovações para o setor.

Laura Landau, especialista do CRAB entrevista nosso primeiro convidado: Pedro Luis. Ele é carioca, artista visual e tem na arte têxtil a sua forma de conectar mundos através dos fios. Sua pesquisa iniciou com a vontade de trazer relevo através dos fios bordados em pinturas. Porém, Pedro entendeu que o bordado em si carregava a força da própria expressão artística e assim mergulhou na técnica e desenvolveu linguagem própria. Ao se apropriar cada vez mais do têxtil conseguiu tirar a “linha” do tecido e deslocar para grandes murais em paredes, provocando uma nova forma de fazer o público se relacionar com o têxtil.

A seguir conheça mais sobre o processo criativo de Pedro nesta conversa cheia de fios e formas.

Pedro Luiz: Sou artista visual e também me apresento como artista têxtil, que é a forma que eu mais gostei até hoje de me expressar artisticamente. Me formei primeiro em Comunicação Social e depois em Artes Visuais. Durante o curso, fui atrás de uma técnica que eu sabia que não ia aprender ali (no curso de artes visuais). Na época, uma vizinha minha de porta que me ensinava bordado na casa dela, então aprendi ali com ela.

Laura: Mas você já tinha contato com bordado antes?

Pedro: Eu venho de uma família onde minha mãe era do trabalho manual. Apesar de ela não bordar, ela fazia crochê, tricô, eu acompanhava o uso das linhas dentro de casa. E a minha avó fazia bordado, tenho algumas coisas na minha casa que foram bordadas por ela. Então eu sabia que eu não estava descobrindo nada sozinho.

Logo no começo, eu usava muito o bordado como um complemento de um trabalho que eu já fazia em outra técnica. Os meus primeiros trabalhos eram em pintura acrílica e eu usava o bordado para dar volume na tela, para criar alguma coisa que eu não conseguia só com a tinta, por exemplo. Ao longo dessas experimentações, fui chegando num caminho em que, além de praticar a técnica, eu comecei também a contar uma história, a minha história, através de fotos, de objetos que eu encontrava em feira, em sebo. Usava o bordado quase como uma colagem. Juntava uma parte do bordado com uma parte de fotografia e isso virava uma colagem têxtil.

A partir disso, em 2017, desenvolvi uma série de trabalhos que chamava Trabalhos autobiográficos com a memória alheia, onde eu sempre usava a base têxtil, bordava uma frase ou uma palavra e relacionava com uma foto antiga garimpada. Ao longo desse processo, eu sempre tive essa preocupação de rasurar os olhos da pessoa da foto, porque quando eu fazia isso, ela deixava de contar a história original da imagem e passava a ser um personagem da história que eu queria contar.

Pedro: Ao longo desses anos, tive muita vontade de explorar cada vez mais o têxtil. Era como se eu buscasse uma forma nova de me expressar ainda usando aquela técnica. Então, quando pensei em fazer coisas maiores, fui para a tapeçaria. Quando quis trabalhar coisas mais figurativas, desenvolvi outra série completamente diferente da das palavras, onde eu me represento no trabalho bordado, represento sentimentos, emoções. Uso as linhas, as cores, os pontos do bordado também para isso.

E é legal falar que, principalmente no começo, eu sempre tive acompanhamento. Fazia aula de bordado com outra professora, e esse saber vai se acumulando. Aprendia um ponto novo, já aplicava no trabalho.

Durante a pandemia, principalmente, era um encontro semanal que eu tinha com esse grupo online, e era um momento de troca muito legal, de mostrar também o que cada um estava fazendo, o que estava desenvolvendo.

Era um grupo muito diverso: tinham pessoas que trabalhavam com bordado de forma mais comercial e estavam ali para se distrair; tinha gente que fazia 100% como hobby, só para aprender, sem tanta pressão de usar aquilo num trabalho. E tinha eu, nesse grupo.

Laura: Quantos homens tinham nesse grupo?

Pedro: Só eu! (risos) E é legal, porque ao longo do tempo também organizei encontros, oficinas, workshops e geralmente pouquíssimos homens. É quase como se fosse um lugar onde parece que a gente não pertence.

Mas quando as pessoas veem o meu trabalho, eu gosto de frisar que é só uma técnica como qualquer outra. Eu escolho falar sobre as coisas que eu falo no bordado porque eu acho que consigo me expressar. Isso através do ponto, através de uma combinação de cor, através de uma textura. Eu estou contando a mesma história que eu poderia estar contando com qualquer outra técnica, mas é a técnica que eu gosto, botando mais um fio, mais uma agulha.

A palavra bordada como linguagem e expressão artística Laura: Quando você faz a colagem, quando você pega uma foto e emenda na outra, você usa o fio como uma a linguagem. Fala um pouco disso, uso das frases, do contexto do fio ali, essa própria amarração ser também parte do que você está querendo expressar.

Pedro: Eu usava muito a palavra como parte da obra, esse vocabulário que vem da arte têxtil é muito rico para você falar de sentimento. Igual como você falou agora: amarrar, costura, fio condutor. Eu acho que explorei também isso. É muito fácil assimilar essas palavras ao campo do sentimento.

Laura: Você traz na linguagem presente “eu vou assumir isso por causa da arte”, como forma da arte se associar à técnica do bordado. Como é que foi para você essa decisão, “Preciso me expressar a partir disso”?

Pedro: Eu sempre gostei de pintar, de desenhar, depois descobri que eu conseguia me expressar também com as palavras. Quando me formei primeiro em comunicação, trabalhava nessa parte de direção de arte, como designer em agência de publicidade. E a sensação que eu tinha era que sempre soube me expressar, mas usava essa expressão para outras pessoas, para um cliente ou para algo que não era meu.

Quando entrei no curso de artes visuais, descobri que eu tinha o que falar, “eu tenho o que falar e eu sei como fazer isso.” Era engraçado que lá atrás, até hoje, eu uso meu Instagram, meu site, para divulgar o trabalho e eu descobri essa identificação que outras pessoas tinham com o meu trabalho. Era uma coisa super autoral, falando muito de mim, e muita gente se identificava com aquilo.

Ao mesmo tempo, tinha o cuidado de não deixar isso mudar o curso do que eu queria falar. Acho que é uma linha muito tênue, principalmente quando a gente fala de arte. E tem essa vontade de se explorar, de mostrar o que eu tenho para falar. É diferente de quando recebo uma encomenda ou uma parceria com alguma marca, que já aconteceu bastante também. É uma diferença que tento tomar muito cuidado, prestar atenção se estou falando o que quero falar ou tentando atingir algum público específico, ou indo para um caminho que não é 100% autoral.

Laura: E isso é uma coisa que a gente encontra muito dentro da arte, do artesanato. Até que ponto aquilo é uma expressão do artista ou artesãos, que é uma linguagem muito específica, ou a que o mercado exige, uma adaptação. Até que ponto vale a pena modificar para atender uma demanda e até que ponto você está ferindo uma expressão?

Pedro: Eu acho que é feeling, principalmente, ao mesmo tempo, também acho que existe um cuidado de entender que seu trabalho talvez não vá ser tão vendido quanto você gostaria, ou que tantas marcas não vão te chamar pra parcerias. Mas pelo menos você está sendo fiel ao que se propôs.

Por exemplo, no final do ano passado, o Sesc em São Paulo entrou em contato comigo, com a minha agente, me chamando para fazer a fachada de um dos Sescs. Por um lado, isso acaba sendo uma chancela do trabalho. Dá um conforto muito legal, de falar: “Que legal que uma instituição desse tamanho está me chamando pra mostrar meu trabalho numa fachada.” Então é quase um pensamento de que bom que em nenhum momento eu cedi lá atrás, que eu continuei fiel ao que eu quero falar, ou à técnica que eu realmente gosto. Porque isso pode acontecer, né? “Ah, hoje em dia o que está bombando é não sei o quê” e aí mudar tudo para fazer o que as pessoas querem.

Do tecido para a parede, o ponto cruz aplicado em grande escala Laura: Agora você está sendo representado pela Aborda, por exemplo. Isso também é um divisor de águas num processo de carreira?

Pedro: É, eu comecei a ser agenciado pela Aborda em 2022. Foi uma conversa com a Carol, uma pessoa super gente fina, que está comigo há três anos. A gente teve esse cuidado, juntos, de eu continuar fiel ao que faço, como com os outros artistas que ela trabalha. Mas ao mesmo tempo, transformar isso em algo rentável. Isso também é uma preocupação importante. “Como conseguimos fazer isso sem perder a essência?” E sem ficar fazendo aquilo para sempre, no mesmo formato.

Os primeiros murais que comecei a pintar foram já na Aborda. Isso foi muito legal. É uma coisa que eu falava com a Carol, como eu queria fazer coisas maiores, porque o bordado acaba sendo pequeno, por conta da técnica mesmo. E eu falava que tinha essa vontade de expandir o que eu fazia. E nós fomos, juntos, ao longo desses anos.

Rolou a primeira oportunidade de pintar um mural em São Paulo no final de 2023. E depois no Sesc. Foi pintado na fachada da Paulista, com pintura em vidro. E aí foi algo que eu comecei a pensar muito: transpor o ponto cruz para uma proporção maior. Rolou essa primeira vez no muro de uma escola, foi um desafio para mim, que nunca tinha feito. Quando a gente borda num tecido, o tecido já vem marcado. Quando vou pintar num muro, eu tenho que quadricular o muro de alguma forma. Existe aquele desafio gostoso de pensar: “Caramba, tem um problema pra resolver, não sei como ainda.” E ao mesmo tempo gera uma ansiedadezinha boa. Mas é maneiro, porque a partir daquele fiz outros com a técnica (que desenvolvi).

Laura: Explica o que é essa técnica?

Pedro: No final de 2023, dentro do têxtil, surgiu essa vontade de começar com o ponto cruz. E mais uma vez, sendo fiel às coisas que já gostava de falar nas outras técnicas, pensei em como continuar falando isso no ponto cruz. Quando surgiu o convite de pintar o mural, já tinha pensado que o ponto cruz seria uma forma legal de transpor do tecido para uma superfície.

O ponto cruz tem isso: parece um pixel. Tem uma coisa pictográfica, você vê que é uma imagem construída a partir de símbolos iguais. Então, a técnica é: o “x” do ponto cruz vira um carimbo, que é o que uso para marcar o muro. E ele transpõe do tecido para a parede que estou disposto a fazer.

É legal quando tem essa identificação das pessoas. Por exemplo, esse do Sesc da Paulista, eu fiquei mais de uma semana pintando a fachada. Era muito legal ouvir o que as pessoas falavam do trabalho enquanto a gente fazia. Quando a pessoa olhava, aí olhava de novo e dizia “Ahhh, é ponto cruz! Minha avó faz isso!” É legal pegar de surpresa com algo que a pessoa já está acostumada a ver em outro lugar, mas em outra proporção. Esse tinha uma frase bem grande, de quatro linhas. As pessoas paravam para ler, e ficavam: “Ahh, agora que entendi!”.

Laura: E o que eram essas frases?

Pedro: Eu trabalho muito, nesses trabalhos mais visuais, com esse elemento das sementes, das raízes, da natureza como um todo. Uma das fachadas era um momento do agora, onde eram duas palavras “agora” no meio de uma semente, mais raízes e umas plantas. Uma delas cruzava a fachada e vinha para o outro lado.

Laura: Ou seja, vai crescendo igual o têxtil, né?

Pedro: Exatamente. Ele continuava e descia para o lado. Eu colocava poema, bordado, entre linhas e nós das relações. Então tinha muito isso: das relações do têxtil com o que eu quero falar no meu trabalho. “Entre linhas e nós” eram linhas do têxtil e nós das relações mesmo. E eu ficava pensando: “Será que as pessoas vão entender?”

O processo criativo vivo de Pedro, que traduz suas vivências com os fios e a poesia Laura: E como é esse processo criativo? Tanto da técnica, ou de um ponto novo, ou até dessa parte do que você quer falar?

Pedro: É quase junto. Desenvolve primeiro a ideia, eu tenho essa preocupação, às vezes, de registrar isso o mais rápido possível para não se perder. E depois vem entender qual o melhor jeito de falar sobre aquele assunto. Às vezes penso: “Será que consigo desenhar isso sem ser tão literal? Será que consigo falar essa frase através de uma analogia com alguma coisa?”

Laura: É todo um processo poético, né?

Pedro: Sim, às vezes vem super-rápido também. Tinha muito isso nos garimpos de foto, ver uma foto e falar: “Putz, quero muito contar alguma história, que eu ainda não sei qual, a partir dessa foto.” Eu também pegava uma prancha de madeira, fazia os furos antes com furadeira, e depois vinha bordando com linha mais grossa. Tem aquela minha série das cadeiras que eu fiz, fiz um shape de skate também.

Laura: E é bem legal que você mistura técnicas também. Que tem a palhinha, que é trançado, que já é uma técnica de artesanato.

Pedro: E é bom estar nesse lugar, saber que não estou me apropriando de técnicas, porque só estou trabalhando em conjunto com outro artesão, sabe?

Esse mês de maio (2025) eu fui para São Luís, fui visitar o Boi da Floresta, fui visitar uma cidade pertinho de São Luís, fui visitar as rendeiras de bilro. E aí, mais uma vez, acumulador, eu falei: “quero levar um tecido daqui e quero fazer um trabalho com isso”. Eu também fiz isso com a palha de Buriti, achei uma que era perfeita, era só o trançado, então estava pronto para receber meu trabalho.

Laura: E você pensa: “hoje vou criar uma série de trabalhos” ou a coisa surge naturalmente?

Pedro: Tem coisas que eu penso e falo: “putz, eu adoraria fazer isso numa cerâmica”. Mas eu não sei fazer cerâmica, então como posso aprender a fazer isso em outro lugar? Ou algumas coisas eu insisto e falo: “não, então eu vou aprender a fazer cerâmica”. Essa que eu te falei que usei a furadeira veio de pensar assim: “ah, eu quero fazer um bordado muito grande, como vou fazer um bordado muito grande?” Às vezes eu penso no que eu quero e depois vou tentando encontrar uma solução para aquilo.

Laura: Mas o protótipo faz parte do estudo que vem antes.

Pedro: É. Às vezes é bom, às vezes não dá nada. Então eu penso “ah, vou testar de outra forma, vou usar outro material ou vou pensar em outro suporte”. Tem muito isso.

Conheça as referências de mulheres bordadeiras pelo mundo Laura: Quem são suas referências, em quem você se inspira?

Pedro: Eu gosto muito de acompanhar artistas têxteis contemporâneos, outros artistas que também usam essa narrativa de se expressar, falar sobre sentimento, falar sobre materializar esse sentimento, talvez em outras técnicas também.

E uma coisa legal que a internet me proporciona é acompanhar pessoas que não conheço, mas admiro, e vira uma relação pessoal ali, uma troca de saberes. É muito legal acompanhar coisas que eu não faço ideia do que está escrito nos trabalhos dessas pessoas, mas que eu vejo que tem uma semelhança muito grande com o meu. Tem uma artista da Sérvia, a Marina Čabrilo, que eu adoro o trabalho dela, apesar de não entender nada do que ela fala. A gente se elogia em inglês, mas eu adoro o que ela faz, e eu vejo que ela gosta muito do que eu faço.

Artistas daqui também, as mestras que me ensinaram bordado. Uma delas é a Isabella Alves, que hoje em dia mora no México e tem uma pesquisa muito legal de arte têxtil com as mulheres mexicanas.

E a outra é a Flávia Lhacer, com quem fui aprendendo ao longo dos anos.

E o que também me move muito a continuar fazendo, e eu sei que me inspira muito, é ver o trabalho de outras pessoas, que não necessariamente sejam têxteis, ou ver também como outras pessoas se expressam. Isso faz muita diferença no que eu faço.

Laura: Para finalizar, gostaria que você me falasse da sua blusa e desse trabalho maravilhoso que você está usando.

Pedro: É um pouco do meu trabalho, onde eu usei uma blusa que eu já tinha em casa como cobaia para testar alguns pontos novos, e aí, como você pode ver, é uma combinação de várias coisas, de vários pontos bordados diferentes, onde eu usava só para registrar. Então ela não tem uma ordem, tem um bordado bem aqui atrás. Ela tem uma coisa aqui embaixo, uma rosa dos ventos que não tem uma das letras (risos). É assim, uma coisa quase livre.

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